Artista plástico de talento e renome internacional, ele se especializou em arte sacra e domina as técnicas de afresco e ícone

O artista plástico Sérgio Prata, 39 anos, nasceu em São José dos Campos, há seis anos está de volta a Bragança Paulista, onde cresceu, mas foi graças a um concurso de esculturas na areia que venceu no Guarujá, litoral paulista, que ele partiu em busca do seu sonho: a pintura. Como prêmio, ganhou uma passagem para Paris e aos 17 anos mudou-se para lá para estudar. Voltou preparado tecnicamente para dar vazão a todo o seu talento. Especializou-se em arte sacra — "estou servindo a Deus", diz —, afrescos, ícones. No próximo dia 01 de novembro, às 20h, Prata expõe suas novas pinturas na Dida Decorações, em Bragança. Em entrevista exclusiva à Perfil & Fama, o artista fala de sua trajetória e de sua arte.

Íntegra da entrevista concedida pelo artista à Revista Perfil & Fama:

Sérgio Prata: 22 anos de forma, cor e arte.

O artista plástico Sérgio Prata, 39 anos, nasceu em São José dos Campos, residiu em Paris e Curitiba, e está de volta a Bragança Paulista há seis anos, cidade onde cresceu. Foi graças a um concurso de esculturas na areia, que venceu no Guarujá, litoral paulista, que ele partiu em busca do seu sonho: estudar pintura na Escola de Belas Artes de Paris. Como prêmio, ganhou uma passagem para a Paris e aos 17 anos se mudou para a capital francesa para estudar arte. Voltou preparado tecnicamente para dar vazão a todo o seu talento. Especializado em arte mural, dedica-se à arte sacra — “estou servindo às pessoas e a Deus através da arte”, diz — pintando afrescos, encáusticas e ícones. Em entrevista exclusiva à Perfil & Fama, o artista fala de sua trajetória e de sua arte.

Perfil & Fama - Como e quando você despertou para a arte da pintura?
Sérgio Prata -
Comecei a desenhar por volta dos 4 anos de idade. Ganhei meu primeiro prêmio aos 7 anos, quando representei minha classe da Escola João Cursino, em um concurso municipal em São José dos Campos, onde nasci. Este prêmio e o incentivo dos organizadores e da família foram determinantes para que eu iniciasse meu longo trajeto de desenhista e pintor. Meu avô, que morava em Santos, comprava pão numa padaria no Gonzaga e guardava para mim o papel que embrulhava os pães, um papel barato e transparente, onde eu podia desenhar e copiar figuras. Quando eu ia para lá nas férias, pegava esses papéis e passava horas desenhando. Deixava até de ir à praia quando o dia não estava tão bonito, para desenhar.

P&F – A partir daí, como se desenvolveu sua carreira?
Prata –
Continuei desenhando e participando de concursos, incentivado pela família. Um deles, muito importante, foi o Concurso Nacional de Esculturas em Areia, organizado pela Air France e o Jornal A Tribuna de Santos. Participei três anos seguidos e em 1981 conquistei o primeiro lugar. Como prêmio, ganhei uma passagem de ida e volta a Paris. Para poder ficar mais tempo na França, abandonei o curso de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Em Paris, estudei por cinco anos na École Nationale Supérieure des Beaux Arts (Ensb-a), onde me especializei em técnicas de pintura, afrescos e desenho da figura humana. Tive como principais mestres Mme. Poncelet, em desenho da figura humana, Mr. Bernard Delamarche, em afrescos, Mr. Abraham Pincas, em técnicas de pintura, Mr. Debord, em anatomia artística, James Bloede, em análise de obras, e Bruno Foucart, em história geral da arte e história da arte do séc. XX.

P&F – Durante esse período, quem custeou seus estudos?
Prata –
Minha família ajudou financeiramente durante um período. Apesar de, nessa época, eu ser o único aluno brasileiro da Ensb-a, o governo brasileiro não me concedeu uma bolsa de estudos. E olha que foram enviados vários pedidos de professores e do diretor da escola ao Ministério da Cultura. Eu só consegui terminar meus estudos porque o Rotary Club de Paris, a pedido do Rotary brasileiro, me ofereceu duas curtas bolsas de estudo, assim como a Fundação Hostater, norte-americana. Nessa fase, tive que me virar para sobreviver e, entre outras atividades, fiz centenas de retratos de turistas no Centro Georges Pompidou. Foi um período difícil, porém valeu a pena.  

P&F – E as primeiras exposições, onde foram?
Prata –
Em 1983, fiz minha primeira exposição, durante minhas férias no Brasil. Em 1985, expus meus trabalhos na França em duas mostras individuais. No ano seguinte, quando voltei ao Brasil definitivamente, fiz exposições em Bragança Paulista, Santos e Curitiba. Infelizmente, logo depois desta última mostra, meus trabalhos foram roubados e tive de cancelar uma exposição que faria no Rio de Janeiro. Acabei ficando na capital paranaense, onde moravam dois de meus seis irmãos. E comecei a fazer retratos para ganhar tempo suficiente para produzir novas obras e expor novamente. Morei em Curitiba dez anos e lá minha carreira tomou o impulso inicial, recebi apoio da Prefeitura para lançar livros, CDs e vídeos, o que foi muito importante para a divulgação de meu trabalho. Depois disto, já expus também no Canadá, um país que pode nos dar muitos exemplos.

P&F – Quais foram os principais trabalhos que você fez em Curitiba?
Prata –
Minhas obras públicas Curitibanas mais conhecidas são as cerâmicas do Shopping Center Novo Batel e os afrescos do Restaurante Castello Trevizzo, em Santa Felicidade. Mas Curitiba também foi importante em minha trajetória porque lá desenvolvi outras atividades como gravura em metal, litogravura e linóleo, além de esculpir em mármore, argila e bronze.

P&F – E como se deu sua vinda para Bragança?
Prata –
Para explicar tenho que contar uma breve história. Meus pais nasceram, se conheceram e se casaram em Santos. Em 1963, mudaram para São José dos Campos, onde nasci. Em 1974, eles decidiram vir para Bragança, terra natal de meu avô materno, José Egydio Prata. Morei aqui até 1981, quando fui estudar na USP, em São Paulo, e depois em Paris. A minha volta à cidade aconteceu em 1996, quando Dom Bruno Gamberini, Bispo da Diocese de Bragança Paulista, me convidou para pintar a Igreja de Santa Terezinha, uma chance que eu esperava há muito tempo. A partir daí, passei a dedicar a maior parte do meu tempo à pintura de capelas e igrejas. Além da Igreja de Santa Terezinha, pintei a de Nossa Sra. do Desterro, em Mairiporã, e Cristo Rei, em Atibaia, e recentemente concluí o painel central da Igreja de São Sebastião, no Bairro da Água Comprida, em Bragança. 

P&F – Quando você decidiu se dedicar à arte sacra e por quê?
Prata
- Creio que meu amor pela pintura surgiu ao observar livros de arte e os painéis murais nas igrejas que freqüentava desde menino, em São José dos Campos, Santos e, a partir dos 11 anos, em Bragança. Eu era uma das crianças que freqüentava a missa de domingo na catedral, com o Padre Zecchin, de quem sou grande admirador. Ao mesmo tempo em que assistia e participava da missa, observava atentamente as pinturas murais. Acompanhei a pintura da capela da Igreja do Rosário, quando Bruno di Giusti executava suas obras, e indaguei o artista, interessado em saber se era possível viver somente de arte. Curiosamente, décadas mais tarde, participei da equipe que restaurou as pinturas deste artista na mesma igreja. Desde a adolescência, participando de movimentos cristãos, sonhava em pintar capelas, trabalho que iniciei em 1983, pintando uma capela em Cachan, uma comunidade assuncionista, onde residi, ao sul de Paris, e na zona rural de Bragança, em uma capela de sítio, que não mais existe.

P&F – E a paixão pelo afresco?
Prata -
Eu fui seduzido pelos afrescos viajando pela Europa e vendo aquelas pinturas murais nas igrejas. Na Itália e na Grécia os afrescos são maravilhosos, um testemunho de arte e civilização. Acho que gosto do afresco por causa da areia contida dentro da cal, um elemento com o qual eu trabalhava na fase das esculturas na praia. A cor do pigmento incrustado na argamassa (intonaco) é pura e a luminosidade da cal não tem igual. A técnica é perene, nobre, resistente.
É uma técnica na qual você trabalha com o pigmento em pó, água, cal e areia. Não existe nenhuma cola que vá sobre a argamassa. O afresco foi muito empregado durante o renascimento. Masaccio, Giotto, Da Vinci, Fra Angélico, trabalharam com o afresco na Itália. No Brasil, Pennachi, Samsom Flexor, Portinari e Burle Marx fizeram afrescos.

P&F – No primeiro semestre deste ano você voltou a Paris após 16 anos. Como foi este retorno?
Prata -
Fui a convite da École Nationale Supérieure des Beaux Arts como professor em estágio. Passei 72 dias na França, revi amigos, professores, ministrei palestras, viajei várias regiões, comprei livros, materiais artísticos e estudei bastante. Recarreguei as pilhas, fui beber na fonte, me reciclar, investindo em minha formação.
O fato mais positivo dessa viagem é que fiz um curso de iconografia em Paris e tornei-me conselheiro técnico de uma das indústrias mais importantes de artigos artísticos da Europa, a Sennelier, que foi incorporada pelos pincéis Raphael. Uma das fórmulas que emprego há anos está sendo testada pela indústria e será lançada na Europa. Em troca, recebo materiais e possibilidades de patrocínio. Hoje trabalho com os melhores materiais e pigmentos, utilizados pelos impressionistas.

P&F - Como é esse trabalho com ícones? Que elementos utiliza?
Prata - Estudei ícones desde 1985, por livros e visitando atelieres em Paris. Recentemente, fiz um curso de especialização no atelier Saint Luc, em Paris, com a iconógrafa Hélène Iankoff, que há 40 anos se dedica e leciona esta arte cristã tradicional. A pintura de ícones é uma tradição de representação cristã, que nos traz belas obras que remontam ao século VI. Ícone significa imagem, com um sentido sacro. Verônica é um nome que vem de Vera Icona, ou seja, de verdadeira imagem de Cristo. Acredita-se que São Lucas pintou retratos de Nossa Senhora e que ele seria o primeiro iconógrafo cristão. A técnica de pintura de ícones emprega elementos dos três reinos: do reino vegetal vem a madeira e o vinagre de uva, do reino animal vem a cola de pele de coelho e a gema de ovo, do reino mineral vêm os pigmentos naturais de terra.

P&F – Qual foi sua participação no projeto de restauro da Basílica velha de Aparecida?
Prata –
Eu cuidei de um levantamento detalhado dos bens artísticos, do diagnóstico das pinturas murais e da pesquisa histórica dos materiais e das intervenções ocorridas, inédita na história da Basílica. No entanto, para poder me dedicar à minha verdadeira vocação, a arte sacra, afastei-me do projeto, devendo colaborar novamente com o projeto na minha área de competência, que é a restauração da pintura mural. No momento o projeto está sendo completado por duas restauradoras do Vale do Paraíba, para ser apresentado ao Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo).

P&F – Você está trabalhando em algum novo projeto?
Prata -
Sim. Trata-se de um templo ecumênico de arquitetura moderna e arrojada, destinado a acolher não somente as celebrações cristãs, mas também de diferentes religiões. Este templo já está construído e fica no Vale do Paraíba. Inicio o desenvolvimento do projeto artístico, que deverá me tomar mais dois meses de trabalho no atelier. Para este templo, conto com o apoio teológico da Diocese de São José e estou estudando a história das religiões. Devo projetar diversos desenhos e pinturas incluindo vitrais, mosaicos, afrescos e ícones. O tema do ecumenismo inter-religioso é complexo, porém necessário e atual. O que difere o ser humano do animal é justamente a crença, a espiritualidade. E o traço comum entre as diversas religiões é o respeito à vida.
Também estou pintando um novo acervo para organizar uma exposição, inspirado em ícones.

P&F – Fale um pouco do Sérgio Prata professor. Além de ministrar cursos você ensina várias técnicas em livros, vídeos e CD-Rom?
Prata -
Minha formação técnica foi uma das melhores possíveis no mundo da arte, e isto me ajuda muito no decorrer de minha carreira. Sou um curioso profissional, adoro aprender. Fui aluno de professores muito generosos e conhecedores profundos de matérias essenciais à formação de um artista. Ao voltar para o Brasil, comecei a lecionar para artistas e estudantes de arte, ao mesmo tempo em que produzia minha obra. Hoje sou autor de cinco livros, editei um vídeo e um CD-Rom, todos tratando sobre matérias essenciais como técnicas de pintura, anatomia artística e composição de obras de arte. Não discuto gosto, estética ou tendência. Ensino somente o que é essencial, o savoir-faire do artista.
Também participei da edição de livros paradidáticos, para a reforma do Ensino Médio. Atualmente recebo artistas de diversos estados que vêm até meu atelier para se especializar em uma técnica antiga ou moderna, seja o afresco, a encáustica, a têmpera ou outra. Colaboro transmitindo conhecimentos hoje raros para que outros talentos possam dar frutos bons e duráveis.

P&F - Quando não está se dedicando à sua arte, o que você gosta de fazer?
Prata –
Sou piloto privado de monomotores. Voava com meu pai desde menino. Adoro aviação como lazer e sempre que posso faço um vôo durante minhas viagens ou em Bragança. Também já pratiquei esportes radicais como skate, surf, kartismo e paraquedismo. Atualmente, minha maior fonte de inspiração é o vôo.

P&F -
O que você diria como incentivo aos jovens talentos que estão despertando para as artes plásticas? Prata -
Estudem, desenhem todo dia. Trabalhem com prazer e satisfação, mas com disciplina. Pesquisem sempre, sem deixar de lado os conhecimentos que herdados dos artistas que já abriram um caminho durante os séculos de arte que nos precederam. Testem todas as técnicas e materiais até encontrar o que corresponde ao seu temperamento. E quando estiverem prontos para fazer arte, não se esqueçam de respeitar a inteligência do público.



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