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A crise da arte contemporânea

Íntegra da entrevista para a revista Artigo 5

O artista Sérgio Prata, autoridade em técnicas de pintura, fala com coragem sobre o mundo das artes plásticas.

O artista Brasileiro foi definido por Jean-Roch Sauer, presidente das indústrias Sennelier e Raphael, da Bretanha, como un puit de connaissances, e por Eugênio Mussak, especialista em inteligência organizacional, como um dos artistas mais completos do Brasil.
Nascido em 1963, Sérgio Prata Garcia começou nas artes ainda menino, desenhando e participando dos concursos de esculturas em areia promovidos nas praias paulistas. Recebeu o prêmio nacional Air France de esculturas em areia em 1981, aos 17 anos, logo após ingressar na Escola de Comunicações e Artes da USP. Aproveitando o prêmio de viagem a Paris, preparou-se para os exames de admissão e foi aceito em duas escolas superiores de arte na capital Francesa, optando por seguir formação na École Nationale Supérieure des Beaux Arts de Paris, onde estudaram Delacroix, David e Renoir, entre outros grandes artistas.
Estudou por 5 anos na capital Francesa, seguindo cursos de análise de obras no Louvre, especializando-se em técnicas de pintura com o mestre Abraham Pincas, e em afrescos com Bernard Delamarche. Na França, pintou e expôs, obtendo respeito entre artistas e professores. Foi orientado por artistas renomados.
Em 1986, de volta ao Brasil, executou retratos, afrescos, gravuras, painéis em cerâmica, editou livros, Cd-Rom, DVD, cursos on-line, e lança, ainda neste mês, uma segunda edição de seu livro Técnicas de Pintura, ampliada.
Prata já foi editado no Brasil, Canadá e Itália, e vem fazendo uma pesquisa em técnicas de pintura, que o levou a 15 países.
Subindo escarpas para chegar em mosteiros no Monte Athos, Grécia, em 2008, para encontrar monges iconógrafos, viajando para visitar artistas e vitralistas na França, fazendo estágios e pesquisas em ateliês, visitando galerias e museus, Sérgio Prata garimpa conhecimentos, sempre na intenção de descobrir técnicas, mas não para guardar para si, algo que ocorre frequentemente entre os artistas adeptos do dito “segredo profissional”.
O artista foi convidado para atuar como professeur en stage na Ensb-A de Paris, em 2002, quando aproveitou para aprimorar seus conhecimentos em iconografia, no atelier d´Iconographie Saint Luc, com a teóloga e iconógrafa Hélène Iankoff, para quem traduziu cursos e organizou exposições no Brasil.
Recebe professores estrangeiros como a vitralista Clotilde Gontel em seu ateliê, para cursos de especialização, mantendo amizade com dezenas de colaboradores de diversos países. Está em contato com os maiores especialistas em técnicas de pintura do mundo, sempre trocando informações.
Sérgio encontra satisfação em partilhar os conhecimentos dos ofícios da arte com os demais artistas, algo raro em nossos dias.
Avesso aos modismos e vigilâncias estéticas impostos por algumas vertentes da arte contemporânea, Sérgio Prata vai além. Não compactua com a ideia de que “tudo é arte e todos são artistas.” Sabe que o tempo é uma fina peneira, e que grande parte do experimentalismo que se faz em arte contemporânea, corre o risco de se perder, por negligenciar a enorme herança de ofício que temos para herdar dos séculos da história da arte. Prata desmistifica o saber-fazer, revela o passo a passo dos procedimentos, ensina técnicas raras, de escolas longínquas. O artista-professor-pesquisador encontra prazer em ver o brilho nos olhos dos alunos, durante o aprendizado. Ajuda a lapidar pedras preciosas. Alunos de diversas procedências do Brasil e do exterior encontram, em seus cursos, as ferramentas e meios para a realização de suas obras.
Sérgio Prata realizou seu sonho de adolescência. Queria pintar uma Igreja. Pintou cerca de 15, até hoje.
E não se atem a técnicas antigas. Propõe novas técnicas, que seduzem o público. Em 1996, criou a técnica trifásica, com a qual o artista cria obras que aparecem no escuro e sob luz ultravioleta. Com estas pinturas, foi premiado na Bienal do México, selecionado por um júri internacional, entre 270 artistas de 32 países. Está pesquisando novas tecnologias de pintura, que lançará em breve.

A redação da revista Artigo 5o. encontrou o artista Brasileiro, em seu ateliê, que fica em uma chácara, no interior de São Paulo.

Artigo 5. Sérgio, ao ler seu curriculum e observar o quanto você já pintou, fica uma questão. Ainda resta o que fazer em arte, ou tudo já foi feito?

Sérgio Prata: Sim, em arte, sempre existe espaço para renovação. Para criar o novo, no entanto, creio que devemos aprender sobre o que já foi feito. Ao estudarmos arte, um amplo mundo se revela. Aprendemos muito sobre a história da arte, e ao mergulharmos nos procedimentos de execução empregados pelos artistas, percebemos que um vasto mundo de conhecimentos interdisciplinares está contido na arte. Aprendemos sobre física, química, composição, anatomia, elementos de arquitetura.... a arte é um terreno muito amplo, muito rico.

Artigo 5. Ao visitarmos algumas exposições de arte contemporânea, temos a impressão que a arte se esgotou, que tende ao esvaziamento, de conteúdo e de público. O que você acha disto?

Sérgio Prata: Eu tive a chance de visitar muitas exposições, pelos países por onde passei. Fui orientado por grandes artistas, na Ensb-A de Paris, como Pincas, César, Pierre Alechinsky, Bernard Delamarche e Pierre Caron. Encontrei e conversei com outros tantos, como Poti Lazzarotto, Burle Marx, Jorge Amado, Sebastião Salgado.
Quando era estudante, na década de 80, vivia no Beaubourg, em Paris. Tenho conhecimento amplo e longo de todo o experimentalismo, livre e libertário, que se faz em arte contemporânea, e conheci alguns dos excessos, praticados por alguns adeptos desta vertente. Muitas distorções acontecem. Já vimos de tudo, muita coisa que não tem bom senso, ou que desrespeita a inteligência do público.
O que acontece é que se nas Artes Plásticas é fácil “qualquer coisa” ser considerado arte, na música, no cinema, no teatro, na gastronomia e na perfumaria, isto não acontece. Quando um barulho é feio, não dá para considerá-lo música. Quando uma coisa fede, não dá para considerar perfume. Quando um gosto é horrível, não dá para fazer passar por uma especialidade da cozinha.
Para ingressarmos no mundo das Artes Plásticas passei por uma longa e boa formação de Belas Artes em Paris. Ao lado de alunos de vários países, aprendi a ver, a refletir, analisar e compor obras. Isto amplia a percepção também para observar os demais aspectos da vida e da sociedade, creio. Algumas coisas que parecem claras para um pintor, podem ser mais difíceis a discernir, para um público sem iniciação ao olhar.
Apendemos a ver os meandros, as entrelinhas. Como a arte é “irritantemente livre”, não podemos cercear à criação. A verdadeira crítica de arte, algo muito raro em nossos dias, poderia funcionar como um regulador das artes. Porém após o erro crasso dos críticos em relação ao impressionismo, quando foram recusados em um Salão de Paris, esta classe virou geleia. Ninguém ou quase mais ninguém teve mais coragem para dizer: Êi, não come isto não, isto não é patê, é cacaboude....E passaram a expor potes com merde d´artiste, sem mais ninguém ter coragem para afirmar que o sujeito que fez o cacaboude era um artiste de merde. Cá entre nós, fica bem mais elegante quando a gente fala estas coisas em Francês.
Quando a arte opta pela libertinagem, desrespeita credos, reduz o ser humano à zona erógena, torna-se uma micagem do caos do mundo. Aplaudida pelos jornais, ávidos de vendas, não encontra mais autoridade crítica, que contenha seus abusos. Sorve recursos públicos sem propor cultura. Propõe sátira, desdenho, brincadeira, temas de guetos, etc..
Constatando esta crise, optei por não ficar levantando poeira, e me dedico a fazer o tipo de arte que colabora para elevar o espírito, propondo fazê-la com poesia e Brasilidade. Adoro as técnicas mais nobres, seculares, como o afresco, a iconografia, os vitrais, a encaustica. Fui seduzido por elas em 1981, quando completei 18 anos de idade em Atenas.
Hoje em dia, poucos artistas manipulam seus próprios materiais como o que era feito até o século XIX, isto é muito mais difícil de ser feito, pois exige mais estudos, não é uma opção pelas facilidades da indústria. Na escolha dos temas, não optei pela permissividade e nivelamento baixo, como ocorre em grande parte da produção contemporânea. Não me dobro à mídia ávida por escândalos e ao mercado, cheio de especulações. Acho até chato ter que comentá-los, pois é ocupar um espaço falando de um tema desagradável, quando existe tanta beleza e técnica em arte.

Artigo 5. Em alguns casos de excessos, você não acha que os artistas podem incorrer em crimes?

Sérgio Prata: Sim, isto é evidente e já foi questionado por alguns juristas. Em arte contemporânea, a permissividade é tanta, que uma cleptomaníaca pode alegar que roubou objetos de uma empresa qualquer, para fazer uma instalação. A justiça quase criou um problema, devido a apropriação indébita destes objetos. Uma pessoa com transtornos, pega um terço e desenha com ele um pênis, e a tal “obra de arte” (?) é exposta em um centro cultural importante. Um exibicionista faz fotocópias de suas nádegas e expõe em plena galeria da Avenida Paulista, ou se coloca nu em uma Bienal, que some com uma fortuna propondo um andar vazio. Um nu, na arte, não pode ser encarado como atentado ao pudor. A disparidade, é que não é o nu de um modelo que posa para um artista. Mas de um “artista” (?) que está nu, como se ele mesmo ou sua performance fossem uma obra de arte. Um “artista” deixa um cachorro vira-lata passando fome, em uma galeria. No jargão policial, chamaríamos isto de desinteligências. Na justiça, de crimes. Na arte, de contemporânea. A permissividade da arte contemporânea é irritante. Eu ainda sou um daqueles que podem dizer que existe muito charlatanismo travestido em arte, e pago o preço de minhas afirmações. Não compactuo com estas condutas, com gente que designa como sendo arte coisas que não o são, nem com todo o sistema montado que lhe dá sustentação. São publicitários oportunistas.
Ainda me surpreendo em saber que cuecas e meias cheias de dólares de verbas públicas ainda não sejam declaradas pelos poderosos larápios como sendo performances de arte contemporânea, visto que o sumiço de verbas de alguns eventos artísticos, ainda consegue passar desapercebido.  
A mídia adora isto, os escândalos. Isto vende. Como diria o caro Dom Bruno Gamberini, se o cachorro te morder, nada acontece. Se você morder o cachorro, fica famoso. Já repeti tanto isto, que me acho até chato de ter que lembrar...
O elogia da frivolidade pela mídia é evidente, pois alguns órgãos de imprensa tem mais interesse nas vendas do que uma reflexão sobre conteúdo. Muitas pessoas optam pela melancia no pescoço, para se fazerem notar. Isto é coisa de principiante. Escândalo para aparecer. Não resiste ao tempo. E quando o crime acontece, quando as crenças são insultadas, quando algum estapafúrdio travestido em “artista” fere os direitos e a constituição, alguns poucos artistas e uma parte do público reage. Por vezes, temos que buscar auxílio na justiça, para que nossas crenças não sejam desrespeitadas. Eu estou entre aqueles que ainda tem o poder da indignação. Por detrás destas ações, sempre existe um conluio, uma orquestração, um gueto cujos interesses são mais fortes. Em alguns casos, o crime travestido em arte é desvendado mais tarde, como o que ocorreu em um caso recente, quando um banqueiro usou a arte como um elemento de elegância e fogo de artifício para fantasiar suas falcatruas. Sim, na arte existe muito blefe e simulação. Sobretudo entre aqueles que não tem berço e formação, artística e moral.
Artistas mais maduros, aqueles que realmente tem formação profissional, algo raro em nossos dias, aqueles que já trilharam um bom caminho, geralmente não estão em busca de flashes e aparições frequentes, mas procuram proporcionar conteúdo em suas artes. Artistas sérios existem, gente capacitada, trabalhando no Brasil. Fico contente cada vez que conheço um deles. Felizmente existem. São o sal da nossa terra, e valem muito mais que o joio que pulula na mídia comprada. Trabalham para propor cultura, e não para fazer a micagem do caos do mundo. Mas não estão na mídia, não chamam tanta atenção. É como na televisão. A gente liga, e vê tanto bandido, tanta gente que não é exemplo aparecendo, tanto tempo gasto com o que é negativo. A mídia perde muito tempo fazendo um elogio ao país que não dá certo, aos Brasileiros que não são exemplo. E tem tanta gente boa, tanta gente honesta. Parece que sou ingênuo ao afirmar esta obviedade, mas se desejamos a melhoria do país, deveríamos focar em quem trabalha para isto.
Felizmente, alguns pensadores brasileiros, como Ferreira Gullar, Affonso Romano de Sant´Anna já discorreram com maestria sobre a crise da arte contemporânea. Isto é importante, pois muitos artistas, galeristas, marchands, estudantes, e grande parte do público não suporta mais tanto desdenho da inteligência, e ao lerem seus livros, sentem-se menos sós, mais acompanhados. O bom senso e o respeito à Arte de qualidade pode ter acabado em muitos setores da arte contemporânea, mas a vigilância ideológica e estética que tentaram nos impor, não sufocou totalmente a crítica, a pesquisa e o saber. Olavo de Carvalho tem uma teoria muito boa sobre as razões de tanto achincalhamento moral e de conduta nos tempos atuais. O que pode soar como uma teoria de conspiração para alguns, faz sentido para outros. O filósofo ventila a possibilidade de que a sociedade é tão permissiva e sem estruturas, como se estivessem aplicando uma estratégia de Antônio Gramschi, através dos meios de comunicação. Faz sentido, verdade ou não, vemos os caminhos tortuosos e nefastos para os quais trilham alguns países da América Latina. 

Artigo 5. Existe então uma espécie de colaboracionismo e de resistência dentro da arte?

Sérgio Prata: Podemos dizer assim. Acho que todos aqueles que insistem em estudar, pesquisar, propor obras resistentes ao tempo, e manter temas com engajamento social são de alguma forma, resistentes. Carlos Scliar me chamava de “teimoso”, pois eu executei afrescos na técnica renascentista, com pigmentos sobre intonaco úmido, na mesma técnica usada por Michelangelo, na Capela Sistina. Esta é minha especialidade. Meu ateliê é o único a ensinar esta técnica, no Brasil. As escolas de Belas Artes deixaram de cumprir sua função informativa. Esta geração perdeu muita herança cultural. Passaram uma máquina que arrasou o conhecimento na Arte. No Brasil, não existe uma escola que forme em vitralismo, por exemplo, nas técnicas de pintura antigas. Desde o fechamento da Casa Conrado, poucos vitralistas detêm realmente o conhecimento de pintura dos antepassados. E muitos menos ainda, ensinam esta técnica. A palavra Gueto é uma corruptela da palavra italiana Jetto, do jato de ar soprado nas bolhas de vidro pelos artesãos de Murano, na Itália. A turma do Jetto era impedida de se relacionar com os demais. Jogavam futebol entre eles.
Insistir em trabalhar com conhecimentos em arte, em um período onde tanta mediocridade e facilidade impera, é sim, no meu entender, uma forma de resistência.

  
Artigo 5. Existe um panorama de retomada da qualidade e dos conhecimentos, que se esboce nas artes plásticas?

Sérgio Prata: Acho que sim. Eu percebo que a grande maioria dos estudantes desejam realmente aprender. Não se contentam com uma falsa formação, com o faz de conta. O faz de conta não satisfaz. Quanto mais estudamos arte, mais entendemos que em todos os períodos da história, existiram os falsários, aqueles que, incapazes de criar algo de qualidade, apoderaram-se dos conceitos de outros criadores, para fazer o comércio de arte. Uma grande distorção acontece no mercado de arte atual, e isto é bem descrito no livro “A Grande Feira”, de Luciano Trigo.
Em contrapartida, em alguns eventos internacionais, como na Bienal do México, percebi que existe uma retomada do pensamento engajado, muito necessário em nosso mundo atual, onde a arte pode também refletir sobre as questões do mundo.
Na minha opinião, os artistas Brasileiros deveriam não se deixar levar pelo engodo hermético proposto por Duchamps e Beyus. Acho de uma ingenuidade gritante esta história de que para se fazer o novo é necessário destruir tudo o que já foi feita. Isto é ignorância travestida em iconoclasmo.
É necessário que os novos artistas se convertam à beleza e ao saber. A tradição, a herança e as regras também são necessárias em arte. Ao contrário de restringir as possibilidades, elas servem como parâmetros, pois não há como ultrapassar os limites, se estes limites não existirem. Ferreira Gullar descreve bem este fenômeno em seu livro “Argumentação contra a morte da Arte”.

Artigo 5. Se entendemos bem, existe uma polarização, também na arte.

Sérgio Prata: Sim, sempre existiram correntes, facções, tendências, movimentos, na Arte. Isto é muito saudável. Cada um puxa para o seu lado. É uma verdadeira fogueira de egos.
Só tenho que discordar, quando pessoas irresponsáveis tentam travestir e designar como sendo arte, algo que não é. Isto é uma espécie de charlatanismo, uma covardia. É fácil enganar neste setor das artes, pois o Brasileiro é um analfabeto plástico, como disse Nelson Rodrigues. Sempre que o Brasil precisou de arte, importou uma missão, Francesa, Holandesa...a formação em Belas Artes chegou a ser razoável em nosso país, que já teve professores de qualidade. Mas a preguiça dos “artistas” contemporâneos, a opção pela facilidade proposta pelas fórmulas dos ready-mades e objets trouvés, cria uma polarização, não somente em relação aos poucos artistas com formação que tem a coragem de resistir, mas também com um grande público, que deseja ver arte de qualidade, e não se contenta com o faz de conta.   

Artigo 5. E qual é a solução, diante de uma crise da arte contemporânea? Como os novos artistas podem fazer para encontrar um caminho?

Sérgio Prata: Acho que ficar polemizando pode ajudar a conscientizar algumas pessoas. No tempo atual, existe uma permissividade e a falta de autoridade em vários setores da sociedade. Em arte, isto se amplia. Tem gente que expõe fezes e diz que isto é arte. Ratazanas em formol, e é arte. Designam como sendo arte qualquer badulaque. Paranaenses, em tom de blague resolveram mandar restos de frango para um salão. Foram aceitos e premiados. A irresponsabilidade e o desdenho com o saber-fazer, esteve em voga. Aproveitando-se da falta de conhecimentos que impera no mercado de arte, oportunistas se uniram e se esbaldaram em verbas públicas, simulando arte.
Isto ainda tinha espaço para acontecer, antes de Affonso Romano de Sant´Anna ter escrito os livros Desconstruir Duchamps e O Enigma Vazio.
A reação a tanto descaso tardou, mas não falhou.
Diante de uma crise deste tamanho, é necessário encontrar alguma serenidade. 

Artigo 5. E como um artista pode encontrar serenidade, diante deste caos e crise na arte?

Sérgio Prata: Eu vejo alguns caminhos. A primeira conduta que devemos adotar é não esperar por muita coisa, nem da mídia, nem dos curadores, nem dos críticos, nem dos salões e bienais, em alguns lugares infestados pela vigilância ideológica e estética contemporânea. Todo mundo que entra e atua na arte, tem alguma expectativa. Quando as regras do jogo são nefastas, é normal que as expectativas se frustrem. Recebo muitos alunos, e todos tem diferentes sonhos. Uns querem fazer sucesso, outros querem se realizar. O sucesso de um artista deveria ser medido não por sua capacidade de vendagem, mas de sua satisfação pessoal, ao executar obras com qualidade.
Quando estudamos iconografia, aprendemos uma conduta dos monges, que é o hesicasmo, que propõe o apaziguamento das paixões e a oração contínua. É uma atitude de busca de serenidade, que é utilizada até por um psicanalista famoso, em São Paulo.

Artigo 5. E como você faz para se concentrar?

Sérgio Prata: Cada pessoa e artista acha uma maneira de se concentrar. Eu optei pela vida do campo, meu ateliê fica em minha chácara. Neste local, onde me isolo, eu consigo me dedicar à autoria de livros, cursos on-line e à pintura de obras. Por vezes, coloco uma música, para me deixar levar pelo ritmo e sonoridade.

Artigo 6. Porque existe um mito do artista isolado, incompreendido, temperamental, antissocial?

Sérgio Prata: Eu noto que algumas pessoas tem receio de lidar com alguns artistas, e inclusive comigo. É normal. Acham que somos diferentes dos demais. Não somos. Somos afetados pelas mesmas coisas, estamos todos no mesmo barco. Mas desenvolvemos talentos diferentes, segundo a atividade a qual nos dedicamos. Um bom artista deve ser como um bom médico; não pode parar de estudar nunca. Tem que ter paixão, curiosidade, humildade diante da ciência com a qual flerta. É preciso ressaltar que alguns pigmentos e solventes são perigosos para a saúde do artista. Poucos artistas estudaram a fundo a toxicologia dos materiais e alguns sofrem consequências de exposição aos materiais. Muitos dos efeitos colaterais da intoxicação por metais pesados causam transtornos comportamentais, e os artistas atingidos por eles, assim como muitos dos médicos, não tiveram acesso a informações sobre este ramo da Medicina ocupacional. E isto não ocorre somente nos ofícios de artes plásticas, existem cerca de 70 profissões onde as pessoas são expostas a ingredientes nefastos à saúde.
A figura do chapeleiro maluco, do Alice no país das maravilhas, descreve um tipo de intoxicação ocupacional; os chapeleiros ingleses intoxicavam-se com o mercúrio no momento de fazer a feltração do chapéu. Portanto, quando você percebe que um artista está meio maluco, certamente ele já está pagando o preço mais caro de sua atividade. Está sofrendo algum transtorno, que nem sempre é tratado de forma adequada. Poucos artistas usam luvas e máscaras. Este ramo do conhecimento está em plena evolução, porém cabe aos artistas estabelecerem procedimentos de trabalho que evitem a intoxicação.
Trato deste assunto também na segunda edição do livro de Técnicas de Pintura, que acabo de lançar, para alertar aqueles que pretendem lidar com pigmentos, aglutinantes, tintas e solventes.  

Artigo 5. E para quem quiser saber mais, ou conhecer melhor suas obras, como é possível visitá-las.

Sérgio: O público pode conhecer minhas obras murais em diversas Igrejas, elas estão abertas gratuitamente a visitação. Também existem afrescos e painéis em cerâmicas, em diversas cidades. Em meu site, mantenho fotos de exposições e informações diversas, e os internautas podem se iniciar nas técnicas mais nobres da história da arte. Estou escrevendo uma enciclopédia sobre técnicas de arte, que é disponibilizada na internet, para os que querem investir em sua capacitação.
Devemos sempre manter a humildade, e estudar, se desejamos realmente aprender sobre arte. O gostoso da dedicação aos estudos de arte é que sempre um novo horizonte se descortina, sempre nos deparamos com mais conhecimentos, técnicas, procedimentos, ingredientes, e resultados. É uma renovação constante, que faz bem a quem gosta e dedica-se à arte.

Artigo 6. Você poderia colaborar com outras informações e segredos profissionais para o nosso leitor?

Sérgio Prata: Para compreender sobre arte, pesquiso há 30 anos, e viajei por 15 países. Acho que com arte e cultura reais, não com frivolidade fantasiada de cultura, podemos colaborar para a evolução das pessoas e da sociedade. Tenho satisfação em colaborar com seu público seleto, formado pelos delegados e policiais Brasileiros. Já tive a satisfação de pintar as obras que decoram a Igreja Santo Expedito, da Arquidiocese Militar do Brasil, em São Paulo, e vejo com bons olhos a colaboração entre a arte e os demais setores responsáveis pela manutenção da ordem e do estado de direito em nosso país.

Clicando na imagem ao lado, você tem acesso à entrevista que foi editada.

Aquela máxima do “seja marginal, seja herói”, do Oiticica, para mim, não cola. A apologia ao crime, para mim é uma falta de responsabilidade, e soa muito mal em um país tão carente de autoridade, paz e cultura.
Como cidadão Brasileiro, eu vibro interiormente a cada vez que vejo a PF botando ordem no barraco. Torço e trabalho por um país melhor, e a minha atividade de artista sacro é uma espécie de oração neste sentido.
Com meu pai aprendi que o grande malandro é o sujeito honesto. Quem tem uma conduta correta, está em paz consigo mesmo, faz um percurso tranquilo, não deve nada à ninguém, não tem rabo preso. Esta é uma condição sinequanon para a liberdade de expressão.

Vamos partilhar conhecimentos, e favorecer a arte que tem real valor, preservando, restaurando e ampliando o patrimônio artístico Brasileiro.

 

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