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Histórias do atelier - A permuta da Madonna

A tela da Madonna, foi seguramente a melhor da série que virou exposição em 1998. Neste período, eu pintava de segunda à segunda, de manhã, de tarde e de noite. Tudo para realizar um sonho: uma casa própria.

Esta era uma de minhas primeiras pinturas bifásicas, que surgiam no final de 1996, começo de 1997.

Foi exposta em São Paulo, no Hotel Hilton. Em Curitiba, na Dell´Arte. Em Bragança, em um salão, durante o lançamento de um livro sobre a cidade.

Algumas pessoas poderosas quiseram comprá-la. Uma proposta vinda da esposa de um Deputado cuja reputação não era das melhores... (ai, como é difícil ser sincero e elegante ao mesmo tempo...) Nesta ocasião, eu ouví um anjinho soando um alarme interno e me sussurrando: - "Calote, calote"... De fato, eu não queria que a Madonna fosse colocada na cabeceira de uma mesa onde seriam discutidos temas de corrupção e lesão ao erário público....

Neguei a venda:
- "Sinto muito, senhora, esta tela já está reservada. Sim, custa muito caro, sim Senhora. Muito obrigado pelo interesse, pois não, foi um prazer, até logo, felicidades".

O segundo comprador, também muito rico, tentou pechinchar... o quê ? 8.000 dólares ? Você não acha que está meio caro, Sérgio? Que tal 5 mil ? Sabe o que é, é que eu estou achando que neste momento, não posso gastar tanto.... Ouvi falar que ele gastou uma verdadeira fortuna em um terreno... A tal da bolsa... é um bom negócio. Valores. Bons valores, para quem os comanda. Para quem especula.

Para mim, naquela proposta, não foi.

Tudo bem, paciência. A tela fica comigo, pensei. Pode deixar. Um dia alguém entenderia seu real valor, dígno de seu conteúdo.

E continuava a procurar, um apartamento e um terreno na cidade. Preços absurdos para um artista plástico. A gente colhe frutos tardiamente... 34 anos, sem um terreno sequer em meu nome, 17 anos de aluguéis nas costas... cansativa esta história de jogar dinheiro pelo ralo...

Artista plástico e sem terra...

Meu irmão Mauro, arquiteto, me levou para ver um terreno. Bairro na zona rural. Um lugar bonito, alto, com uma bela vista da Fazenda.

Curiosamente, situado no exato local em que eu começava a caminhar, após as corridas de 2 km que fazia quando vinha de Curitiba para visitar a família, partindo da chácara de meus pais. Logo após uma subida ao lado de uma floresta, um topo plano, com uma bela vista.

Lá, nos embrenhamos por um enorme terreno, cheio de eucalíptos. Parte da Fazenda. Que precisava de um grande serviços de "destoca" dos eucalíptos, de terraplanagem. Trabalho grande. Custoso. O genro do fazendeiro queria fazer um loteamento, mas não tinha din-din para fazer a terraplenagem.

E foi então que o Giovanni apareceu, e gostou da tela. E disse que achava cara, mas que a gente devia fazer negócio, que podia pagar em serviços....

Eu pintava a Igreja de um Italiano, do famoso, temperamental e mutio bem-quisto Padre Aldo Bollini. Fui ao túmulo dele rezar, alí mesmo dentro da Igreja de Santa Terezinha, enquanto eu pintava os painéis da Santa Terezinha: - "Pôxa, Padre Aldo, você sonhava em pintar a sua Igreja. Eu a estou pintando. Dá uma força, eu estou querendo achar um canto para mim, uma casa, um terreno, qualquer coisa de bem bacana."

Até parece que ele mandou um recado para outro italiano, o Giovanni:

-"O Giovanni, caro amico, sabe lá, na Rodovia Pe. Aldo Bollini, si, la mia Rodovia, da vero, si trova um posto per fare il atelier d´arte di Sérgio !!!

Que cara ponta firme este Padre Aldo, que dava coques com os dedos na cabeça da molecada, educava, e rezava forte !!! Baita amizade que ele tem com Deus, este italiano brabo... Daqueles missionarios da PIME, que iam desbravando, construindo, delegando funções, pegando materiais para as obras que fazia, mandando o pessoal botar na conta de Deus.

Bons de papo estes italianos, bons de negócio, dá para conversar. Quando a proposta é boa... a gente estuda. Sobretudo se a amizade for mais importante do que o negócio. A consideração e o respeito maior do que os números.

Eu já estava cansado de pagar aluguel... foram 17 anos pagando lugares para trabalhar, para morar....Rezava à Deus e à Nossa Senhora, pedindo uma ajuda para encontrar um cantinho, onde eu pudesse construir uma casa pequena, só para começar...

E o nosso amigo Giovanni, curiosamente, tem uma empresa de terraplanagem. Proposta feita: uma permuta entre três pessoas. Eu dei a tela ao Giovanni. Ele deu a terraplanagem e a destoca do terreno, o dono do lotemamento me deu 1000 metros quadrados. Com mais algumas economias, comprei um pouco mais de terreno. Ganhei o final da rua, e chegamos aos 1800 metros. Tinha espaço para crescer. E um lugar alto para ver o por do sol. Água limpa, deu no poço.

Mas isto não veio de graça. A bênção, o sim, só vem depois das escolhas.

O sim só vem se a gente souber dizer não.

Disse não ao político corrupto. Disse não ao especulador.

Tant pis.

 

Visão ultravioleta da Madonna, tela trifásica.

 

Isto me faz pensar em quantos cantores sobem em palanques para ganhar cachês de não importa quem, fazendo campanha para qualquer um. Me faz pensar em quantos artistas não sabem dizer não à corrupção, e só pensam em seus próprios umbigos, vendendo seus shows à qualquer um. Quanto colaboracionismo e falta de engajamento dos artistas. Quanta conivência com o descaso, com a desonestidade, com sistemas desumanos, com ideologias falidas, maquiadas em contemporaneidade...

E me faz pensar na música de Francis Cabrel, em seu novo disco, que fala sobre este fato: se nós não fizéssemos somente petites-chansons inutiles, se contribuíssemos com des choses essentielles à la societé... A música continua: on serait des gens formidables...

E, finalmente, pouco tempo após, a Madonna foi levada por um amigo, que me deu o que tenho de mais precioso, aquilo que eu tanto sonhava: um terreno para fincar os alicerces da minha morada e do meu atelier, para dar continuidade à Arte.

Na exposição de Curitiba, negócio já feito, a tela emprestada pelo Giovanni (da qual já se apoderara sua mãe), recebeu vários lances. O novo colecionador não fechou nenhum negócio. Pediu alto. Pediu o que vale, mais de 25.000 dólares. Certo ele !!! Sacré Giovanni. Não vende não !!

Em agradecimento, transformei a tela, que era bifásica, em uma tela trifásica, em 2008, durante a exposição no Museu do telefone. Aumentem o valor, nos próximos lances. Que eu continuarei a aconselhar o colecionador a não vendê-la. Pois existem coisas que não tem mais preço. Cuja história as torna únicas.

Milagre de Nossa Senhora, que abençoa nossas decisões, nossos passos.

Uma Madonna por um terreno !!! Minha melhor venda: uma permuta entre três pessoas. Todos saíram contentes. Cada um realizou uma conquista.

É bom demais ter fé !!! E perceber a Providência Divina.

Obrigado, querida Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, Nossa Senhora de Guadalupe, Nossa Senhora Aparecida, Notre Dame de Paris. Não importa onde eu vá, seu doce amor me acompanha.

Que esta morada e este atelier, sejam abençoados sempre por sua amorosa luz.

A pintura trifásica, nas três visões: de dia, no escuro e sob luz ultra-violeta.

 

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